Entrevista: "Com meus pais eu nunca tive uma conversa fluindo normal"
- Alice Falcão
- 10 de jun. de 2022
- 2 min de leitura
"Com meus pais eu nunca
tive uma conversa
fluindo normal"
Por:
Alice Falcão
Maurício é um surdo de 44 anos, aposentado. Enquanto em atividade, trabalhava como professor de Libras em uma escola na Ondina.
Christiana, filha de Maurício, é uma ouvinte de 21 anos. Atualmente trabalha no McDonald's como vendedora, enquanto estuda para cursinho

Repórter: Chris, nascendo numa família de pais surdos, qual idioma você aprendeu primeiro? Libras ou o Português?
Chris: O primeiro idioma que tive contato foi a língua de sinais (Libras).
Repórter: com quantos anos aprendeu o idioma secundário? Obteve alguma dificuldade?
Chris: Não me lembro com precisão com que idade eu aprendi a falar português, mas foi bem tarde, por volta de cinco/ seis anos de idade, eu falava frases desconexas, isso quando eu falava, pois em quase todos os lugares em que eu estava as pessoas eram surdas, então não precisava falar. Então tive bastante dificuldade em aprender a falar e ler.
Repórter: Chris, você sofreu alguma dificuldade no processo de alfabetização?
Chris: Sim, com toda certeza, eu aprendi a realmente a falar frases conexas e ler por volta de 8 anos de idade, antes disso eu usava frases como: eu ir praia, eu fome, quero banho.
Repórter: Chris, atualmente diante da sua fluência nas duas línguas, qual você se sente mais confortável em se comunicar?
Chris: Apesar da minha língua natural ter sido a Libras, hoje eu me sinto mais confortável para me comunicar através da língua portuguesa mesmo, contudo isso se dá devido ao meu estilo de vida atual, estou mais inserida com ouvintes, então eu a uso com mais frequência. Mas ainda me sinto confortável para falar em Libras, principalmente para conversar com meus pais.
Repórter: Mauricio, em relação a conversação, a sua comunicação com sua filha é melhor do que sua comunicação com seus pais? sempre foi assim?
Maurício: Com meus pais eu nunca tive uma conversa fluindo normal, já que eles não sabiam libras. Então não era tão confortável conversar com eles devido a isso. Entretanto meus filhos tem fluência, então fica mais fácil me comunicar com eles de forma mais tranquila sem dificuldades de compreensão, como eu tenho com meus pais.
Repórter: Maurício, seus país são surdos ou ouvintes? Tanto você quanto seus pais aprenderam a Língua Brasileira de Sinais quando crianças?
Maurício: Meus pais são ouvintes, e eles não sabem a língua de sinais. Apesar de ter um filho surdo eles não têm fluência em Libras, eles usavam mais a escrita ou a mímica para se comunicar comigo. Eu aprendi a língua de sinas com 17 anos, tive que viajar para São Paulo com uns amigos para poder aprender, já que no interior (Jequié-Ba) onde eu morava não tinha uma escola para surdos, o que dificultou meu aprendizado. Antes disso eu me comunicava através de mímica, basicamente.
Repórter: Maurício, como foi ensinar sua filha ouvinte a falar primeiramente em Libras? Foi desafiador para você ou completamente natural?
Maurício: Foi muito natural, com meses de vida eu já conseguia me comunicar com meus filhos, e com um ano de idade eu já conseguia saber quando eles estavam com fome, querendo ir ao banheiro, etc...
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